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COMO SE ORIENTAR E PROGREDIR NO TERRENO


Conseguir se orientar na natureza é a primeira meta que todo aventureiro deve possuir. Afinal, você não sairia de casa para a rua sem saber aonde está indo. Faria isso, então, num lugar isolado e selvagem? Ser capaz de achar-se em meio à aparente escassez de informações disponíveis no campo utilizando para isso as formas do relevo, o Sol, a Lua e os astros ou algum artifício como cartas topográficas, a bússola ou um GPS são maneiras de encontrar sua posição no mato. Este artigo visa a começar a torná-lo apto a descobrir sua localização e determinar uma direção confiável para sua progressão sempre que estiver num ambiente hostil. Conheça as noções básicas de como se orientar e se pôr

EM MARCHA

NUM TERRITÓRIO

SELVAGEM



maginemos o caso de um jovem que, retornando tarde para casa num ônibus, acaba adormecendo e deixa passar o ponto onde deveria saltar. O ônibus segue viagem até o final da linha, um bairro isolado no qual o rapaz nunca esteve. Sendo já noite, perto da madrugada, não há quase pessoas na rua. Despertado pelo motorista quando o ônibus para, ele leva um pequeno susto ao perceber que dormiu demais e pergunta onde está; se o motorista, o trocador ou o fiscal, os únicos presentes, sabem como ele pode retornar para o bairro onde mora. Eles lhe informam qual lugar é aquele e dizem não haver mais transporte ali perto aquela hora.

           

Sabendo onde está, o jovem recorda que sua avó mora num bairro próximo. Ele sabe que, perto da casa dela, há um terminal com ônibus 24 horas. Perguntando como chegar a esse bairro, o trocador diz a ele que, a uns três quilômetros dali, seguindo pela via principal, o jovem poderá encontrar um transporte até lá. O funcionário da empresa lhe explica como proceder: “ao chegar no segundo cruzamento, pegue a rua da esquerda e vá até a igreja.” O jovem, mais animado, caminha pela via, segue a direção que o trocador orientou e avista um ponto de ônibus ao lado da igreja com uma placa avisando que a linha faz ponto final no bairro da avó dele. Assim, o jovem segue até lá, chega ao terminal, pega outro ônibus e o rumo para casa. Mesmo tarde, ele consegue atingir seu objetivo e vai poder dormir na sua própria cama.

    

O exemplo acima mostra um evento passível de ocorrer na cidade em que o rapaz citado se viu desorientado por não conhecer o bairro onde acabou indo parar. Por sorte, havia os funcionários da empresa que lhe informaram a direção que devia tomar para conseguir retornar ao seu lar. O jovem, daí, se localizou, se orientou e caminhou até chegar em casa. Em geral, na cidade, não damos atenção aos cuidados com a orientação por motivos óbvios: estamos acostumados a rodar pelas ruas, as quais, em geral, conhecemos bem, devido à existência de inúmeras placas que mostram as direções dos bairros e por ser bem fácil conseguir informações aqui ou ali sobre qualquer destino que seja. Na natureza, entretanto, a situação é bem diferente.

               

Muitos aventureiros de final de semana, quando vão para uma trilha mais longa, acreditam que acharão sinalizações ao longo do caminho ou esperam sempre encontrar pessoas que possam lhe ajudar durante o trajeto. Essa visão relaxada das pessoas acaba sendo um problema. Isso porque, numa trilha perto da cidade ou numa região muito visitada, isso é até provável de acontecer. Contudo, onde começam as diferenças, começam as dificuldades. É muito fácil não se deparar com absolutamente ninguém num trajeto dependendo da época; mesmo que seja um local conhecido. E, estando sozinho, sem saber se orientar, se perder acaba sendo justamente um dos caminhos prováveis. Por isso saber onde se está e para onde se deve ir na natureza é essencial.


ALGUMAS ÁREAS MAIS VISITADAS PELOS TRILHEIROS (COMO O PARNASO, O PARQUE NACIONAL DA SERRA DOS ÓRGÃOS, NO RIO DE JANEIRO, VISTO NA FOTO ACIMA) COSTUMAM POSSUIR UMA INFRA-ESTRUTURA COM ABRIGOS, ÁREAS DE CAMPING E SINALIZAÇÕES AO LONGO DAS PRINCIPAIS TRILHAS. ENTRETANTO, ESSAS MARCAÇÕES NÃO SÃO SUFICIENTES PARA GUIAR UM VIAJANTE INEXPERIENTE. POR ISSO O RECOMENDADO AO SE DECIDIR POR REALIZAR UMA TRILHA EM LUGARES ASSIM É A CONTRATAÇÃO DE UM GUIA LOCAL OU A COMPANHIA DE ALGUÉM QUE CONHECÇA BEM A ÁREA. EM OUTRAS REGIÕES MENOS FREQUENTADAS, ISSO SE TORNA AINDA MAIS VITAL.
ALGUMAS ÁREAS MAIS VISITADAS PELOS TRILHEIROS (COMO O PARNASO, O PARQUE NACIONAL DA SERRA DOS ÓRGÃOS, NO RIO DE JANEIRO, VISTO NA FOTO ACIMA) COSTUMAM POSSUIR UMA INFRA-ESTRUTURA COM ABRIGOS, ÁREAS DE CAMPING E SINALIZAÇÕES AO LONGO DAS PRINCIPAIS TRILHAS. ENTRETANTO, ESSAS MARCAÇÕES NÃO SÃO SUFICIENTES PARA GUIAR UM VIAJANTE INEXPERIENTE. POR ISSO O RECOMENDADO AO SE DECIDIR POR REALIZAR UMA TRILHA EM LUGARES ASSIM É A CONTRATAÇÃO DE UM GUIA LOCAL OU A COMPANHIA DE ALGUÉM QUE CONHECÇA BEM A ÁREA. EM OUTRAS REGIÕES MENOS FREQUENTADAS, ISSO SE TORNA AINDA MAIS VITAL.

NOÇÕES BÁSICAS: OS PONTOS CARDEAIS

A primeira noção que todo viajante deveria ter antes de pôr os pés em qualquer trilha é conhecer bem as noções espaciais — a Rosa dos Ventos. A Rosa dos Ventos é a orientação básica para se tomar qualquer direção na natureza. Embora possa se dizer “vire à direita em tal caminho” ou “siga a trilha da esquerda à frente”, os pontos cardeais contidos na Rosa (norte, sul, leste e oeste) e os pontos colaterais (nordeste, sudeste, sudoeste e noroeste) são de utilização extremamente comum em todo sistema de navegação antigo ou atual e o seu conhecimento imprescindível à leitura de qualquer carta topográfica. Eles existem para indicar o sentido num ambiente onde, simplesmente, não há placas, e a orientação precisa ser feita por meio do Sol, da Lua, das estrelas ou do relevo.

           

Veja na figura abaixo o desenho de uma Rosa dos Ventos, mostrada também com os chamados pontos subcolaterais (que indicam os sentidos localizados entre os pontos cardeais e colaterais).

Símbolos dos pontos cardeais: Norte (N), Sul (S), Leste (L ou E – de east, em inglês), Oeste (O ou W – de west, em inglês). Símbolos dos pontos colaterais: Nordeste – entre o norte e o leste (NE), Noroeste – entre o norte e o oeste (NW), Sudeste – entre o sul e o leste (SE), Sudoeste – entre o sul e o oeste (SW). Símbolos dos pontos subcolaterais: Nor-nordeste – entre o norte e o nordeste (NNE), Nor-noroeste – entre o norte e o noroeste (NNO), Sul-sudeste – entre o sul e o sudeste (SSE), Sul-sudoeste – entre o sul e o sudoeste (SSW), Lés-nordeste – entre o leste e o nordeste (LNE/ENE), Lés-sudeste – entre o leste e o sudeste (LSE/ESE), Oés-noroeste – entre o oeste e o noroeste (ONW/WNW), Oés-sudoeste – entre o oeste e o sudoeste (OSW/WSW)


É importante saber que, em relação ao norte, também se pode referir pelos termos setentrional ou boreal; ao sul, por meridional ou austral; ao leste, oriente ou nascente, e ao oeste, de ocidente ou poente. Juntos, os pontos correspondem a uma volta completa no horizonte do planeta Terra (equivalente a um círculo).

 

Para se orientar utilizando os pontos cardeais, é necessário saber que o Sol nasce sempre na direção leste e se põe na direção oeste — fazendo um ângulo de 180° sobre a Terra. O verbo “orientar” significa “buscar o oriente”: ou seja, encontrar o local onde surge o Sol. Feito isso, ponha-se de lado com seu braço direito apontando para o leste como se estivesse no centro da Rosa dos Ventos. Naturalmente, seu braço esquerdo apontará para o oeste e você estará de costas para o sul e defronte ao norte. A Lua também nasce a leste e se põe a oeste, entretanto sua visualização é mais difícil pelo fato de a luz do Sol ofuscá-la. O mesmo ocorre com os planetas e estrelas vistos à noite.


O TERMO "ORIENTAR" SIGNIFICA "BUSCAR O ORIENTE": OU SEJA, ENCONTRAR O LOCAL ONDE SURGE O SOL


Na realidade, dependendo da posição no globo terrestre ou época do ano, o local do nascer do Sol pode variar ora mais para norte, ora mais para sul. Quando dizemos, genericamente, que o Sol nasce no leste e se põe no oeste, queremos se referir à direção, suficiente para a maioria dos casos de sobrevivência e locomoção na natureza. Devido à inclinação do eixo da Terra (que propicia as estações: primavera, verão, outono e inverno), ao longo do ano, diariamente, ocorre uma pequena mudança do local do levante do Sol. Esta variação acontece, aproximadamente, da seguinte forma: na primavera e no outono, seja no Hemisfério Norte ou Sul, o Sol nasce no leste e se põe no oeste; durante o verão nas regiões ao norte — inverno, nas áreas ao sul — ele nasce mais a nordeste e se põe a noroeste; durante o inverno no Hemisfério Norte — verão no Sul — ele surge a sudeste e se põe a sudoeste. Somente em 21 de março e 21 de setembro (estas datas podem variar para um ou dois dias antes ou depois) o “ponto” em que o Sol surge no horizonte indica com exatidão o leste. Da mesma forma, nesses dias, o local onde ele se põe indica exatamente o rumo oeste.


           

APRECIAR O PÔR DO SOL NAS MONTANHAS É SEMPRE UM ESPETÁCULO. EM GERAL, OS TRILHEIROS O FAZEM APÓS CAMINHAR O DIA INTEIRO E PARAREM PARA ACAMPAR. É UMA ESPÉCIE DE PRESENTE DA NATUREZA. O SOL, HÁ MILÊNIOS, TEM SIDO NÃO APENAS UMA FONTE DE VIDA E CONTEMPLAÇÃO PARA A HUMANIDADE. ELE SEMPRE FOI NOSSO PRINCIPAL GUIA; NOSSO MEIO MAIS EFICAZ DE SE ORIENTAR.
APRECIAR O PÔR DO SOL NAS MONTANHAS É SEMPRE UM ESPETÁCULO. EM GERAL, OS TRILHEIROS O FAZEM APÓS CAMINHAR O DIA INTEIRO E PARAREM PARA ACAMPAR. É UMA ESPÉCIE DE PRESENTE DA NATUREZA. O SOL, HÁ MILÊNIOS, TEM SIDO NÃO APENAS UMA FONTE DE VIDA E CONTEMPLAÇÃO PARA A HUMANIDADE. ELE SEMPRE FOI NOSSO PRINCIPAL GUIA; NOSSO MEIO MAIS EFICAZ DE SE ORIENTAR.


ORIENTAÇÃO E PROGRESSÃO NO TERRENO


Orientação, acima de tudo, é referência. É necessário sempre guiar-se por algo. Na natureza, os meios de se orientar precisam de alguma referência natural, seja no céu, na terra ou no mar. Raramente, encontrar-se-ão nela objetos ou construções feitos pelo Homem, a não ser próximo a povoados. Por isso, mesmo que você possua algum tipo de equipamento para se orientar, fora se utilizar do Sol e demais astros, explorar o relevo de uma região é sempre útil por prover ao viajante uma farta gama de pontos para deslocamentos nesses ambientes.          

 

Ninguém deve caminhar a esmo, sem possuir um destino bem definido e um trajeto. Da mesma forma que, na cidade, quando se deseja saber onde fica um lugar — como o jovem perdido da introdução —, sua localização é apontada por meio de pontos pelo caminho (“ao chegar no segundo cruzamento, pegue a rua da esquerda e vá até a igreja”), no mato, tais noções são medidas por situações do próprio terreno.


           

Havendo uma senda, essas referências estarão visíveis mais facilmente, pois o trajeto já estará determinado. Toda a sua localização irá basear-se por ela, encontrando as indicações ao longo do percurso (como “caminhe até encontrar uma cachoeira uns vinte metros ao lado da trilha; desça até o fim da ravina e pegue o caminho à direita, etc”). Sem trilha, sua preocupação será maior tanto em relação ao destino como ao trajeto. Precisará, aí, mirar, primeiro, um ponto destacado no horizonte, feito o topo de uma colina, uma árvore frondosa e solitária, a curva de um rio, e seguir nesse sentido atento para não perdê-lo de vista — sempre examinando bem o trajeto para escolher o percurso mais fácil.


ORIENTAÇÃO, ACIMA DE TUDO, É REFERÊNCIA. É PRECISO SEMPRE GUIAR-SE POR ALGO. NA NATUREZA, OS MEIOS DE SE ORIENTAR PRECISAM DE ALGUMA REFERÊNCIA NATURAL, SEJA NA TERRA, NO CÉU OU NO MAR.


Saiba: não é difícil se perder na natureza. A desatenção com o caminho, seja mesmo ele uma trilha bem demarcada, pode fazê-lo passar de uma entrada, não observar um desvio, etc. Esteja sempre atento ao terreno e não se distraia. Se não houver um percurso ou este for mal sinalizado, caminhe devagar e com referências a distâncias pequenas. Havendo dúvida, busque um ponto a uma medida segura de sua posição (num descampado, isto pode significar cem metros; numa selva, cinco) e vá até ele, repetindo o processo indefinidamente até alcançar seu objetivo.


Exemplo de totem feito com pedras para sinalizar o caminho. Em geral, na natureza, elementos dela própria ou carregados pelos mochileiros servem como "placas" para guiar o viajante. Podem ser deixadas setas feitas com galhos, lajes arranhadas por lascas de pedra, troncos caídos ou fitas amarradas nas árvores. O rastro de outras pessoas, muitas vezes, também serve como sinalizador da direção certa.
Exemplo de totem feito com pedras para sinalizar o caminho. Em geral, na natureza, elementos dela própria ou carregados pelos mochileiros servem como "placas" para guiar o viajante. Podem ser deixadas setas feitas com galhos, lajes arranhadas por lascas de pedra, troncos caídos ou fitas amarradas nas árvores. O rastro de outras pessoas, muitas vezes, também serve como sinalizador da direção certa.

 

Em muitas travessias, esse cuidado aparece em trechos de matagais, lajeados, neve, após se cruzar um rio. Há a preocupação de se estar sempre na trilha e, nesses locais, ela “some” (é comum os guias marcarem o trajeto com fitas nas árvores, pinturas de setas nas pedras ou totens — pedras empilhadas formando uma espécie de pirâmide). O aconselhável é, no caso de se estar sozinho, marcar o ponto onde a trilha desaparece e, dentro de um raio de cinco metros, procurar sua continuação. Observe bem. Caso não ache, estenda o raio a dez, quinze, vinte metros, até encontrá-la.


Tenha calma! Não seja afoito de sair andando pelo primeiro atalho. Embora o rastro deixado por outros caminhantes (como pegadas no chão, o mato virado ou quebrado e troncos arranhados) seja sempre um bom sinal, em locais assim, as pessoas se perdem e acabam deixando picadas que se tornam, na verdade, caminhos errantes capazes de confundir até os conhecedores da trilha. Por isso, nunca perca o ponto de onde você veio (não confie apenas em sua memória: faça uma marcação visível ou deixe a mochila ou outro objeto ali). Será a sua segurança no caso de ter que voltar. Caso esteja em duas ou mais pessoas, deixe alguém nesse local enquanto os outros varrem o terreno a procura do caminho. Encontrando algum trajeto, siga por ele alguns metros até ter certeza de que realmente é a trilha certa.

           

Uma outra solução para esses casos é “fazer a trilha ao contrário”. Ao descer uma ravina, por exemplo, localize no horizonte próximo — no caso, a outra encosta — a continuação da trilha. Siga com os olhos o percurso dela para trás até o mais próximo da posição onde o caminho se torna impreciso. Parta rumo a esse ponto e irá cortar o hiato de indecisão. Estará novamente no curso certo.


OBSERVAR BEM A TRILHA É IMPORTANTE O TEMPO TODO. O RASTRO DEIXADO POR OUTROS TRILHEIROS É UM ÓTIMO INDÍCIO DO CAMINHO A SEGUIR: O CHÃO E O ENTORNO DELA TRAZEM MUITAS INFORMAÇÕES. MAS É PRECISO TER CUIDADO EM TRECHOS QUE PAREÇAM DUVIDOSOS. NESSES LOCAIS, É COMUM OUTROS AVENTUREIROS ABRIREM PICADAS NA TENTATIVA DE ACHAR O CAMINHO. POR ISSO NÃO SE AFOBE E TENHA CERTEZA DE ESTAR PROSSEGUINDO SEMPRE NA TRILHA CORRETA.



 O NEVOEIRO, NEBLINA OU RUSSO, CHAME COMO QUISER, É UM ELEMENTO COMUM NAS MONTANHAS. NOS VALES ENTRE OS MORROS, ELE COSTUMA APARECER E DIFICULTAR A VISUALIZAÇÃO DO TRAJETO. AO PENETRÁ-LO, É PRECISO TER CUIDADO REDOBRADO E, O TEMPO TODO, SE ATENTAR PARA A TRILHA DENTRO DO SEU CAMPO DE VISÃO. CONSEGUIR VISUALIZAR O TRECHO ONDE O CAMINHO PROSSEGUE DO OUTRO LADO DO VALE LHE DARÁ A DIREÇÃO A SER SEGUIDA.

Aliás, olhar para trás é uma dica valiosa. Sempre que estiver avançando por um terreno desconhecido, guarde o hábito de, a intervalos de tempo, olhar para trás e perceber como é a visão do caminho no sentido contrário. Marque algumas referências caso você estivesse rumando no sentido oposto (facilmente visíveis no relevo) ou você mesmo as faça: se estiver atravessando uma floresta, marque com um facão as árvores de ambos os lados do tronco para que possa enxergar os sinais indo e voltando. Você pode ter que retornar.

           

Para atravessar cursos d’água, lembre-se: observe na outra margem onde a trilha ou direção do caminho prossegue. Ao entrar em um vale de mato alto, ache a continuação do percurso enquanto ainda desce a montanha. Na descida de cachoeiras, penhascos e em várias outras situações, faça sempre o mesmo. O importante é: deve sempre existir uma referência natural para guiá-lo PELO, ATÉ ou DE VOLTA ao caminho correto. Seja cauteloso e, o tempo todo, observe.


 

Uma dica que parece óbvia, mas é importante consiste em simplesmente perguntar. Há um ditado antigo que diz: “Quem tem boca vai à Roma.” É a pura verdade e vale para a natureza. Não se acanhe de indagar a outros aventureiros que possa cruzar no trajeto acerca do caminho. Isto não é desmerecimento; o pior é se perder. Aproveite os locais de acampamento e mirantes nos quais a probabilidade de encontros é maior para conversar e tirar dúvidas. Por se achar muito sabido e não ter humildade, em algum momento, você pode se ver sozinho e levar horas para encontrar a senda correta — coisa que faria em minutos se tivesse pego uma informação lá atrás quando teve oportunidade.


AO TER QUE CRUZAR RAVINAS, VALES OU RIACHOS, PROCURE IDENTIFICAR ONDE O CAMINHO CONTINUA DO OUTRO LADO. ASSIM, CASO PERCA O RASTRO, SABERÁ A DIREÇÃO A SEGUIR. A CORRENTEZA FORTE DE UM CURSO D'ÁGUA, POR EXEMPLO, PODE FACILMENTE LEVÁ-LO PARA FORA DA TRILHA.


À noite, torna-se difícil conseguir referências por causa do breu. Fica ainda mais necessário aumentar o cuidado e diminuir os espaços entre as orientações — normalmente, para dentro do campo de luz da lanterna. Em geral, marchar à noite não é recomendado por causa disso e devido a ser o horário costumeiro na natureza quando, em lugares habitados por animais perigosos, eles deixam as tocas. Se precisar rumar para o horizonte, as estrelas costumam ser a única referência. Elas não apenas podem indicar a direção Norte-Sul como qualquer uma delas pode ditar o rumo do viajante noturno.



           

Devido à rotação da Terra, a posição das estrelas no céu muda constantemente. Por essa razão, quando usadas como referência como no caso de alguma delas estar situada sobre o destino que você almeja traçar ou numa posição de destaque, passa a ser necessário o uso de uma bússola para poder checar, a intervalos de tempo, se a direção permanece correta. Uma estrela próximo do horizonte pode guiar seus passos durante cerca de meia hora (após isso, é necessário utilizar a bússola). Caso esteja no hemisfério norte rumando para o sul (ou vice-versa), faça uma checagem a cada quinze minutos por segurança. Se o percurso segue na direção leste ou oeste, paralelo à estrela, se torna mais difícil segui-la por ela subir no horizonte ou ficar para trás. Em todo caso, encontre outra estrela como referência quando verificar que a primeira já está posicionada numa direção diferente da anterior.


 FOTOGRAFIAS TIRADAS À NOITE COM UMA GRANDE EXPOSIÇÃO DEIXAM CLARO O TRAJETO FEITO PELAS ESTRELAS FORMANDO UM ÂNGULO DE 180° OU MAIS AO REDOR DO EIXO DA TERRA. QUANTO MAIS PRÓXIMO DOS PÓLOS, MAIS ESSE ÂNGULO TENDE A SER MAIOR E SE APROXIMAR DE 360, OU SEJA, UMA VOLTA COMPLETA.

Por fim, vale um ensinamento. Na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, há uma instrução dada aos cadetes do 1º ano (no Curso Básico) em que os militares são levados em grupos encapuzados para bem longe da base à noite e lançados a esmo no terreno — sem nada além do fardamento. Eles precisam retornar até a alvorada. Muitas vezes, o céu está completamente nublado e a única orientação fica por conta da projeção no céu das luzes vistas ao longe dentro de um vale. É na direção dela que todos devem rumar. Os grupos que completam o exercício precisam se guiar por inúmeros pontos no terreno até alcançá-la. Fica claro o seguinte: qualquer conhecimento ou equipamento é um complemento à observação de algum ponto na natureza, no ato da jornada, que sirva para orientar sua direção. Seguir na direção de algo que está no rumo certo e se pode enxergar com clareza é a melhor maneira de avançar. Guarde essas palavras: caminhe, primeiro, com os olhos. Depois, com os pés.


SEGUIR NA DIREÇÃO DE ALGO QUE ESTÁ NO RUMO CERTO E SE PODE ENXERGAR COM CLAREZA É A MELHOR MANEIRA DE AVANÇAR. CAMINHE, PRIMEIRO, COM OS OLHOS. DEPOIS, COM OS PÉS.






Caminhar na natureza exige atenção o tempo todo. Uma trilha de dezenas, centenas ou até milhares de quilômetros precisa ser percorrida curva a curva, metro a metro, passo após passo. Mantenha os olhos fitos no chão, no adiante e no horizonte. E não se esqueça de olhar mesmo para trás às vezes. §


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QUEM
ESCREVE

O autor, ALLAN KRONEMBERG,

é jornalista, ex-militar e o criador

da marca NA FRONTEIRA. Desde novo,

Allan é aficionado por histórias

de exploradores, filmes de cowboy

e livros sobre os mais variados

temas e aventuras (com destaque

para as obras de Hemingway,

Jack London, os poemas de Bukowski,

frases de Twain e os contos hiborianos

de Howard - inclua as páginas de

"O tempo e o vento", de Érico Veríssimo,

nessa lista mais as notas pujantes de uma

canção do The Cult). Tornando-se

ele mesmo, pelos anos, um aventureiro,

Kronemberg sempre buscou na

natureza selvagem - e numa garrafa

de whisky, ele diria - a inspiração

para a vida e suas próprias estórias.

Foi dele a ideia de tornar

a NA FRONTEIRA, além de uma

grife de roupas, uma revista sobre

os mais diversos assuntos pertinentes

à rotina e aos gostos dos clássicos

aventureiros; homens e mulheres

com o espírito da tempestade

em seu sangue.

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